Textos e programação paralela.

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Kombi derruba motociclista e foge sem prestar socorro (parei para tirar fotos para o canal motoboy e quando percebi a vitima era o meu amigo reinaldo)Tadeu 2007-05-05 23:33:16



Não há sombras de dúvidas de que as imagens que vemos acima, veiculadas na Internet, chocam e falam por si. Mas a realidade que estas imagens traz ao público, não mais agora passa pelo crivo de uma edição, numa repartição de um grande jornal ou TV. Elas dizem mais, por que elas foram enviadas por um motoboy. As aspas no título acima, que um leitor menos atento poderia deixar escapar, informam que além das imagens, a própria construção dos conteúdos enviados ao canal*MOTOBOY, diretamente de celulares, com câmeras integradas, permitem a publicação imediata na internet de informações. Mas o próprio título, que o motoboy Tadeu enviou neste fatídico dia, em que viu o próprio amigo sendo socorrido pela emergência do Corpo de Bombeiros, continua a nos chocar, seja pelas possibilidades tecnológicas inscritas nesta atual realidade, seja pela força de um argumento que faz balançar as mais seguras opiniões: seria a motocicleta um veículo que põe em risco a vida.





Lembro que, quando era motoboy e pela primeira vez fui convidado a escrever um artigo em uma revista, escolhi precisamente um título que, mal compreendido à época, falava de Liberdade e Necessidade, mas também, tinha como tema uma questão muito em voga: a crença de que existem acidentes. Como algo que existisse na natureza, algo que transportado para a cultura, naturaliza os “fatos”, e insensibiliza os sentidos. Temo hoje ainda não ser compreendido. Mas, certamente, não ignoro que a realidade dos fatos é uma construção social. E estes FATOS, falam mais alto hoje. Foi preciso o sacrifício diário de uma vida tirada por dia, para que a sociedade acordasse em relação aos motociclistas vitimados pelo trânsito. E embora esta calamidade pública tenha chegado a estes índices alarmantes, há ainda um outro perigo que ronda a vida dos cidadãos: a incompreensão do papel da motocicleta enquanto solução para a mobilidade urbana. Por isso qualquer política que não compreenda a questão do trânsito como uma relação entre sujeitos, - que no uso idealmente adequado das vias e na condução de diferentes veículos e equipamentos, se situando numa região de conflito – incorre no risco de verem-se atuando sobre os efeitos criados pelo tráfego; e não conhecendo as causas, se imputam de responsabilidades. O que hoje nós cidadãos paulistanos vivemos são as mazelas deixadas, seja por ignorância ou incapacidade, daqueles que fizeram ouvidos moucos aos reclames dos mensageiros motociclistas, que, desde a primeira tentativa de regulamentação da Categoria dos Profissionais Motociclistas, vieram a público alertar sobre os riscos que um Decreto-Lei traria para a cidade. Local de baixo consenso, e ignorando por completo a complexidade dos serviços prestados pelos motociclistas a comunidade, o Gabinete, daquela prefeitura servindo ao conluio passou por cima de uma consulta ao legislativo, e desengavetou uma antiga lei que regulamentava os táxis da capital. O equivoco não seria maior, se mais outro e outro prefeito não tivessem cometido os mesmo erros: tentarem enquadrar uma categoria específica com um Decreto-lei que só faz sentido a outra forma de trabalho, que é de serviço público, e não privado, e, ainda hoje, mais uma vez a Cidade de São Paulo se vê as pressas tentando dar solução àquilo que não tem solução.


Marginalizados pela sociedade, embora servindo as suas formas de acumulação e produção de mercadorias e serviços, os motoboys, vivem hoje no limbo social, sob a marca da indiferença e do espanto.


Responsáveis em boa parte pelo alto fluxo de circulação da informação, ou, como nova modalidade do trabalho na malha urbana, a Categoria dos Profissionais Motociclistas, embora imprescindível à vida da cidade, não foi compreendida ainda.


Como uma nova classe de trabalhadores, surgida a partir do rápido crescimento do setor de serviços e terceirizações, nas últimas três décadas, ela tem enfrentado muitos problemas em termos de regulamentação de seus serviços e sua legitimação na sociedade, mas também, por parte dos intelectuais e pesquisadores, ainda faltava uma compreensão.


Mais do que uma atividade doméstica, ela se insere na lógica da globalização, como fase de exploração do capital onde, a intensificação da informalidade e a flexibilização, trouxe uma forte fragmentação das relações sociais do trabalho. Seja fornecendo como moeda de troca uma pseudo-autonomia - informada na velocidade dos meios -, que produz sujeitos cada vez mais confiantes e alienados, seja como atores sociais que buscam se legitimar e acomodar-se nos nexos dos grandes sistemas, mas que também vivem os seus efeitos. Como diz o sociólogo Francisco de Oliveira (2004 G.n), “o capital global paira sobre determinando as duas formas: ele impõe a informatização da produção de mercadorias e serviços e os motoboys que atualizam, sobre Yamahas e Hondas, o putting out assassino e louco das corridas”, eles não apenas reproduzem esse sistema, como também são produzidos segundo uma lógica que é remanescente do período colonial. Explica-se dessa maneira a razão das altas taxas de acidentes, que assustam a todos. Se for a calamidade pública, é também a sociedade contra-produzindo aleijões e uma mortandade irresponsável, deixando inumeráveis famílias desamparadas, pior do que uma guerra, pois, invisível não deixa rastros, apenas filhos e mães e esposas sem qualquer apoio do Estado.


Figura urbana por excelência, o motoboy responde por anseios de liberdade e independência, que apenas uma valoração de sua organização enquanto Categoria Profissional poderia sair desse paradoxo: ter sua imagem vinculada a um processo, que por essência opera pela exclusão.


Daí que hoje, amplifica-se o debate em torno dessa questão e, como uma forma uma de compreensão desse fenômeno, no sentido de encontrar respostas para aplicações de políticas públicas, mas também encontrar mecanismos democráticos de diálogo com toda a sociedade, que o Centro Cultural São Paulo, em comemoração aos seus 25 anos, organiza um Ciclo de Debates, num evento que visa fazer uma profunda reflexão sobre os problemas trazidos por esta profissão, com a presença de profissionais das mais diversas especializações como sociólogos, economistas, psicólogos, educadores, legisladores, urbanistas, engenheiros de trânsito e profissionais de saúde, e representantes dos órgãos públicos de controle do tráfego e os próprios motoboys. Iniciativa essa que parte das pesquisas que o artista espanhol, Antoni Abad, vem desenvolvendo em São Paulo com seu Projeto canal*MOTOBOY, mas também com a participação do Grupo de Estudos dos Profissionais Motociclistas na USP, buscando compreender a importância dessa categoria, mas também do trânsito nas vias das grandes cidades. Projeto que o Centro Cultural São Paulo acolheu e vê hoje realizado com a participação de 12 motociclistas que registram e editam seus aportes no cotidiano, transformados em cronistas de sua própria realidade, mas também porta-vozes de sua categoria profissional.


Falar, portanto, sobre o motociclista é também falar sobre esse desejo secreto que sentimos às vezes, em alguns momentos, de ter aqueles superpoderes, concedidos apenas aos heróis da ficção, mas isto é passado, lugar comum criado pela mídia, uma forma de sonhar que somos invencíveis que nasce da necessidade de extravasar a pura realidade. A realidade agora é outra. Um exemplo bem ilustrativo que pode ser “seqüenciado” pelo leitor é entrar no site do Projeto, digitando www.zexe.net, lá o leitor verá na mesma tela, que a Realidade do Profissional Motociclista é bem outra. Hoje, antes de iniciar estas linhas e me deparar com estas chocantes imagens do motoqueiro Reinaldo estendido e emitindo gritos de dor, antes, o leitor verá algumas fotos caseiras (a filhinha do Ronaldo mostrando a língua na sua casinha nova pela manhã), na seqüência Ronaldo se preparando para sair ao trabalho, depois fazendo uma entrega numa cidade próxima, no trânsito, logo entram as fotos do acidente e as condições em que ficou a moto de Reinaldo, no fim da página, uma foto tirada da Av. Paulista ilustra mais uma noite que chega, a lua ilumina um dos torreões de marfim. Assim, a moto, enquanto um símbolo de uma época, tem se mostrado um grande veículo para se concretizar esse sonho de potencia. Mas também aparece como objeto formador da cultura, e suas formas de representação. Quem não gostaria de na hora do rush ter asas e sair pela janela do carro, fugindo daquele calor abrasador – afinal estamos num país tropical e nem todos podem possuir ar-condicionado. Ou então, chegar no seu destino, sem ter que se consumir horas dentro de ônibus apertados? Assim, homens e máquinas têm sido representados em eterno movimento, a velocidade é o valor maior de uma cultura, e não por menos que hoje podemos falar de uma “cultura motoboy”. O que, em outros termos, significa compreender que aquelas políticas devem visar um grande investimento em educação, e em vez de tapar o sol com a peneira, dar lugar a todos os sujeitos do trânsito, reconhecimento que se espera fazer a via Pública, não um local de disputa, já que conforme os princípios do Código de Trânsito o veículo mais pesado deve sempre resguardar pelos mais leves e ágeis, fazendo assim das ruas e avenida um espaço sim, com conflito, mas de respeito mútuo. Desse modo, o dia que a sociedade olhar para os motociclistas sem preconceito ter-se-á uma outra educação. Esta comprovado, mais de 90% dos “acidentes” são conseqüência de erros humanos, ou seja, acidentes não existem, o que existe é a imprudência, e uma sociedade que não vê o quanto seus trabalhadores são explorados, é ela que é imprudente, pois, tão cheia de preconceitos, não vê quanto os ditos “motoboys” e “motogirls” são necessários à dinâmica da cidade e de sua economia.


Se eles pintam no trânsito com suas motos velozes. Eles criam um matiz na tessitura urbana com seus capacetes reluzentes. Se eles idealizam um moto de vida autônomo que na suas estratégias de sobrevivência alimentam um espaço de disputa, mas também faz a cidade gerar riqueza e benefícios aos seus cidadãos, eles merecem um mínimo de respeito, devem ser levados a sérios, mas também devem ser ouvidos. Por isso está ai, veja a Programação Cultural (abaixo) que o CCSP está organizando, mas, principalmente, venha debater idéias e valores no desafio de pensar, conjuntamente com os próprios Profissionais Motociclistas, e os cidadãos paulistanos, maneiras de enfrentar o grave problema vivido hoje por esta categoria na Cidade de São Paulo.


Eliezer Muniz dos Santos, Curador Adjunto, canal*MOTOBOY


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No espelho retrovisor. Um espectro ronda o trânsito — o espectro do motoboy.





Há anos que ele vem des-aparecendo em meio aos carros, os donos por direito do espaço não tão público das ruas e avenidas da cidade. O espelho retrovisor dos automóveis revela a imagem fugaz de um personagem cada vez mais presente. Invasor de um espaço restrito, o motoboy burla códigos e normas para suprir uma demanda de mercado. Desobediente, ele faz ver até que ponto a desregulamentação acarreta problemas para um país que se pensa pacífico, mas não enxerga seus mortos diários. O motoboy devolve a imagem que se faz dele, pois é sua única maneira de ser visto: personagem que não se enxerga nem se escuta mas que se quer disciplinar, o Leviatã das relações de trabalho tenta seduzi-lo com a oportunidade de ser “autônomo”. E transforma-o em “autômato”. Por ser uma relação, mas com apenas uma via de visibilidade, ao motoboy é dado um papel que alguns abraçam com prazer: o delinqüente sobre rodas que nada obedece ou respeita. Da natureza simbólica da motocicleta nasce o mito do fora-da-lei que chuta sua própria imagem no espelho. A invisibilidade do motoboy pode se transformar quando este invade o espaço do outro. Alguns sabem disso e invadem com vontade. De aparecer. De conflitar. Não obedecem as regras pois não faz parte do jogo. Os demais profissionais que arriscam a vida diariamente carregando documentos, valores, ofícios, correspondências e outras parafernálias do nosso cotidiano burocratizado, são, desse modo, agrupados em uma categoria à sua revelia, como sempre acontece nessa construção cotidiana chamada sociedade. O que foge à categorização transforma-se em caricatura. E a caricatura é uma imagem sensibilizada pelo personagem criado apesar da pessoa.


Video: Video_22


Hoje são milhares de motoboys em meio ao tráfego pesado da cidade. Os corredores de ônibus espremeram os automóveis, mas garantem o transporte dos periferizados até os centros de trabalho, otimizando o tempo de quem tem que chegar antes e sair depois. Os tempos distintos dos distintos trabalhadores assim se cristalizam. O espaço também: corredores segregados imitam a separação meta-física entre quem pega ônibus e quem usa carro, ao mesmo tempo em que sedimenta a opção da cidade pela sua geografia excludente. Dos depósitos de mão-de-obra barata, entretanto, surge um rebelde por natureza: a motocicleta, que penetra no espaço que não lhe é de direito, ágil que é, rebolando entre os automóveis habitados por quem precisa que determinadas coisas sejam feitas em determinado tempo. Ou mais rápido, de preferência. Os eternos trabalhadores invisíveis, que constroem sem aparecer pois seu espaço restringe-se ao lugar da produção e não da fruição, sobre a motocicleta tornam-se incômodos ao desafiar o olhar atento do motorista — atento com o outro no carro e não com seu empregado na moto, pois ver o outro significa, primeiro, encaixá-lo dentro de um discurso. A invisibilidade de alguém pressupõe a inexistência desse alguém dentro do ordenamento social. Mas a invisibilidade muda historicamente: do escravo aos trabalhadores miseráveis de Engels na Manchester do século XIX, o motoboy tem sua existência condicionada pela sua posição social. E esse olhar condicionado que é regra na sociedade desigual é forçado a enxergar quem nunca viu: primeiro como incômodo, depois como estatística. Inverte-se então o dito de Marx: o motoboy é primeiro farsa para depois tornar-se tragédia: o serviçal submisso vira marginal para depois morrer. Entretanto, ao contrário do enredo cotidiano dos romances policialescos dos tablóides televisivos diários, o motoboy é um trabalhador. No imaginário nacional isso significa ser o oposto do “bandido” — que é o nosso “vagabundo”.


Video: Video_08


O motoboy trabalha e morre, ou trabalha e se acidenta, pois, como numa guerra, para cada morto aparecem três feridos: clavículas quebradas, joelhos torcidos e pernas amputadas são outras estatísticas além das 365 mortes anuais — ou 366 se o ano for bissexto. Daí, a equação simbólica que não fecha: não é bandido; é trabalhador, mas morre. Fica o incômodo de algo que não se explica. Algo que não se entende. Como uma sociedade pode conviver com um espectro desses lhe rondando a civilidade?



Audio: Clip_son
Apesar da morte ser o destino humano, o convívio diário com sua real possibilidade pode revelar a falta de capacidade da sociedade em gerir bem-estar. As categorias profissionais cujo discurso é perpassado pela fatalidade mostram valores diversos para a vida humana: parece que, tal a geografia “política” da cidade que circunscreve em um “centro expandido” seu gueto de civilidade, o acesso aos confortos e oportunidades é demasiado restrito. Quem se percebe excluído dessa parcela de civilização pode optar por não partilhar de seus princípios, resignando-se frente à fatalidade ou rebelando-se: a morte na fila de um posto de saúde ou na esquina de uma avenida torna-se um fato da vida ou um slogan que fala da opção por ser outsider: “vida loka”.



A civilização do trabalho intelectual tem tradição em rejeitar as tarefas musculares, braçais. Tais tipos de atividade foram continuamente rebaixados à medida que o processo histórico foi tomando o rumo do intelecto, que domava a natureza e a sobrepujava — colocando-a a seu serviço — distanciando-se da sujeira e do suor, separando-se cada vez mais de sua origem e, assim, manifestando o orgulho do caminho percorrido. E com a história, segue o rumo do olhar. O motoboy, nesse ponto, é o final de uma complexa cadeia produtiva: ele é o responsável pelo último parafuso de uma grande máquina. Seu trabalho o obriga a relacionar-se com as ruas e avenidas continuamente, exposto à fumaça e fuligem, ao suor e à sujeira — que não penetra nos automóveis, essas carapaças herméticas de conforto regulado, fetiche do homem moderno. A natureza da motocicleta é outra — daí seu apelo não-conformista; mas como sujeito do ordenamento social, a motocicleta enquanto veículo para o lazer é diversa da motocicleta para o trabalho: a sociedade não aceita o conformismo em seu seio tão facilmente. Ela restringe ao lazer — o período do não-trabalho merecido após as horas regulamentares —, ou outro tipo qualquer de regulação, seus rompantes de originalidade. A motocicleta também está mais próxima do risco que o carro: os dispositivos de segurança desenvolvidos ao longo de anos — e que tornam os automóveis cada vez mais seguros e caros — trouxe ao homem a possibilidade de viver cada vez mais próximo do limite. Se os carros mudaram muito, as motos, no entanto, mudaram pouco, devido aos limites de sua própria concepção. O risco físico fica então ao encargo de quem a ele se sujeita, como no caso de inúmeros outros trabalhos essenciais à sociedade que, por lidarem com o que se considera “degradante” — pois contrário à norma que valoriza a distância dos subprodutos ou da infaestrutura da máquina social —, são reservados às classes mais abaixo da pirâmide. A sociedade, em suma, deve operar como que “por encanto”, magicamente funcionando sem produzir detritos de qualquer espécie. O “encanto” é assegurado pelo olhar que ignora quem lida com o indesejável — ato agravado em uma sociedade historicamente segregada cujo ideal de igualdade de direitos é apenas retórica, uma idéia “fora do lugar”: é o que fica aparente no trato da valoração da vida humana, que possui índices diferentes conforme se aproximam do centro geográfico da metrópole. Aqui, igualdade e auto-consciência unem-se para dizer que consciência e democracia não se separam.



Audio: mms


No “centro expandido”, a morte ganha destaque, mesmo que seja pela força dos números. O motoboy acidentado aparece nos noticiários graças ao agravamento do trânsito de uma cidade cujas veias não suportam mais a seiva que transporta. O motoboy que agiliza serviços e encurta prazos, atrasa a rotina da cidade quando sai de sua rota invisível. Nesse ponto, ele passa a ser visto. Vira assunto no jornal. Leis são feitas para ele. Umas “pegam”, outras viram moeda de troca entre os representantes do poder e quem a ele deve se submeter. Outras simplesmente somem. Leis num país de apenas alguns cidadãos carecem de eficácia. Leis são elementos públicos, num país em que as calçadas são mosaicos desarranjados da privacidade de cada imóvel a invadir o espaço público das ruas. A falta de normatização é a falta de um projeto unitário. Isso incentiva a criação de mais leis, para tentar normatizar o caótico, o que provoca a ingerência nas coisas mais básicas. Chega-se então às normas que impõe roupas padronizadas, com fitas luminescentes, para que o motoboy seja visto. Acessório indispensável por ser mundialmente aceito como eficaz, ele esbarra na questão de que a invisibilidade do motoboy não é um problema de regras de trânsito, mas de organização social. O olhar é educado para não ver. O olhar cria. Sobre o motoboy incide o olhar que vigia. Esse olhar não dá oportunidade ao observado de se pronunciar, pois vigia segundo suas próprias normas. Ele visa o encaixe em um sistema, em um discurso que viabiliza e reforça ordenamentos já previamente estabelecidos.


Cabe então ao olhar deseducado a tarefa de observar e se surpreender. O olhar estrangeiro é aquele que não participa do conjunto de normas específicas em que passeia momentaneamente os olhos. O turista descobre o que o nativo não vê, pois encaixa em outro sistema de valores simbólico — ou não encontra lugar definido para encaixar, e aí fica a surpresa do inusitado. A curiosidade do estrangeiro devolve imagens que muitas vezes não vemos. Por isso o estrangeiro pode ser perigoso pois com seu olhar desestabiliza toda uma construção social. Nesse ponto, o motoboy é o estrangeiro eternamente presente no trânsito da cidade. É o indivíduo que não deveria aparecer ali, mas, invisível, deveria cumprir sua missão civilizatória e retornar ao gueto, como outros milhões, diariamente, mundo afora. Resta saber em que mundo vive esse estrangeiro, ou em que mundo ele pensa viver.


Da união de estrangeiros surge a oportunidade de dar ao “motoboy” o controle de seu discurso. Capturando as imagens de seu cotidiano, o “profissional do motofrete” pode mostrar o que vê da maneira como sente, tornando-se visível além da mera estatística. O indivíduo sob o capacete de “motociclista” pode mostrar quem é, o que vê e o que quer nas imagens que produz. Para além do herdeiro do antigo office-boy, o novo personagem cotidiano que ronda o trânsito em sua moto pode, finalmente, começar a produzir sua própria caricatura.


Augusto Stiel Neto.





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PROGRAMAÇÃO PARALELA
1

TEMA: canal*MOTOBOY
DATA: 12/maio – sábado – 14h
LOCAL: Praça das Bibliotecas
OBJETIVO: Encontro com o artista
MEDIADOR: Inês Raphaelian e Keila Muniz
PARTICIPANTES: Antoni Abad
coordenadores
motoboys
familiares

2

TEMA: ARTE
DATA: 19/maio – sábado - 12 às 15h30
LOCAL: Sala Lima Barreto
PROGRAMAÇÃO: 12h – Meu nome é Ronaldo, de Antoni Abad e Glòria Martí 2007 – DVD, 18min
12h20 – Na Garupa de Deus, de Rogério Correa, 2002 – vídeo, 26min
13h – Motoboy Vida Loka, Caito Ortiz, 2003, DVD, 52min
14h – Debate com diretores e artistas
MEDIADOR: Eliezer Muniz
PARTICIPANTES: Antoni Abad
Alberto Lopez Cuenca
Caito Ortiz
Gilson Schwartz

3

TEMA: POLÍTICA
DATA: 22/maio – terça – 16 às 19h
LOCAL: Sala de Debates
PROGRAMAÇÃO: Debate com intelectuais e personalidades
MEDIADOR: Augusto Stiel Neto
PARTICIPANTES: Roberto Scaringella (Presidente da CET)
Silvana Zuccolotto (ANTP)
Oded Grajew (Instituto Ethos)
Cliente convidados

4

TEMA: TRABALHO
DATA: 23/maio – terça – 16 às 19h
LOCAL: Sala de Debates
PROGRAMAÇÃO: Debate com representantes de classe, empresários do Setor e especialistas em legislação trabalhista
MEDIADOR: Ronaldo Simão da Costa
PARTICIPANTES: Eugênio Hatem Diniz (FUNDACENTRO)
Fernando Souza (SETCESP)
Aldemir Martins (SINDMOTOS)
Eliezer Muniz (canal*MOTOBOY)

5

TEMA: CINEMA
DATA: 26/maio – sábado – 12 às 15h30
LOCAL: Sala Lima Barreto
PROGRAMAÇÃO: 12h – Motoboy – César Meneghetti e Elisabetta Pandimiglio, 2004, longa metragem, 55min
13h15 – Os 12 trabalhos, Ricardo Elias – longa metragem, 90min

6

TEMA: LEGISLAÇÃO
DATA: 23/junho – sábado – 10 às 13h
LOCAL: Auditório da Câmara Municipal
PROGRAMAÇÃO: Debate
MEDIADOR: Martin Grossmann
PARTICIPANTES: Secretário de Transportes (a confirmar)
Presidente da Câmara Municipal (a confirmar)
Representantes e empresários do Setor Automotivo (a confirmar)



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